quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Da entrada aos finalmente



Cada vez que vou com meu marido a um restaurante e nos deparamos com um couvert farto ele comenta:  "provavelmente a relação entre consumo de sobremesa é inversamente proporcional ao consumo de couvert, sabe porque!?" Eu, óbvio, sempre respondo que sim e, em parte, até concordo. De fato, se temos uma entrada farta e o prato principal é satisfatório, muito provavelmente vamos recusar a sobremesa. Mas isso é uma situação bem particular de quem "sai para comer ao invés de jantar", como eu costumo dizer a ele- meu marido- numa leve crítica ao fato de que quando saimos pra jantar, a comida em si é (ou deveria ser) apenas um dos componentes da experiência. Mas, no fundo no fundo, quase todos saem para comer mesmo e, sob esse ponto de vista, concordo que a relação couvert (quando bom) e sobremesa é inversa.

Recentemente estivemos na Argentina e uma coisa nos chamou a atenção. Em determinado restaurante, na cidade de El Calafate, a garçonete nos trouxe os cardápios e já deixou sobre a mesa o que (para nós) parecia ser o couvert. Uma cestinha com torradinhas e uma porçãozinha de manteiga. Pois bem, fizemos o pedido e em seguida se aproximou outro garçom retirando o primeiro couvert e deixando outro, bem mais farto, sobre a mesa. Não resisti e perguntei o porquê da troca. Ele nos explicou que as torradinhas são para enquanto decidem o pedido. Já o couvert (o generoso) era para enquanto se esperava pelo prato principal. Ah, a fartura!

Lembramos imediatamente da história couvert X sobremesa e eu logo concluí: o dono do restaurante pode até não ter intenção de, mas no fundo no fundo o que está fazendo é um tipo de descompressão, aquela mesma que há na entrada dos supermercados, onde produtos grandes em torres imensas são expostos. No supermercado, a intenção é clara: desacelerar o cliente que entra apressado. Já no restaurante o primeiro couvert serve para que o pedido seja feito sem pressa, já que tranquiliza o faminto e sugere, desde o início, que o restaurante está atento.

Não preciso dizer que não chegamos aos finalmente nessa janta, digo, à sobremesa!

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