segunda-feira, 4 de março de 2013

Demora apimentada

Realmente não estávamos com muita sorte naquela noite. Fomos a um restaurante português "com ganas" de degustar um suflê de bacalhau. Pois bem, lá fomos! Fizemos o pedido e de entrada nos sugeriram bolinhos de bacalhau. Muito bem, que fosse a noite do bacalhau, então! Não demorou muito e os bolinhos já estavam na mesa, juntamente com as bebidas. Na mesa já havia condimentos básicos, como sal e azeite. Havia também uma molheira com um molho vermelho. Enquanto meu marido "regava" o bolinho com azeite, não hesitei em colocar o molho no meu.

Não foi preciso mais que uma fração de segundos para o inferno em brasas se fazer presente em minha boca. Indescritível a sensação que senti. Quanto mais água tomava, claro, mais forte o gosto da pimenta (numa hora dessas fica difícil raciocinar e lembrar dos conselhos dos avós e pedir logo pão!). Pensei que não passaria nunca, foi horrível. O restaurante estava vazio e o garçom não teve como não perceber o meu desconforto. Apenas comentou comigo : "Ah sim, esse molho é bem picante mesmo!".

Enquanto me recuperava, esperávamos pelo prato principal. Esperamos, esperamos....esperamos até que tivemos que perguntar sobre o pedido. O garçom tinha a resposta na ponta da língua : " Vocês pediram o suflê, não é mesmo? É o prato mais demorado da casa, leva em média 50 minutos para ficar pronto."

Deu pra entender o porquê da falta de sorte?!

Dois simples detalhes foram mais que suficientes para comprometer a experiência do casal. Digo simples detalhes porque são facilmente evitáveis.

"O prato mais demorado da casa" pode ser facilmente valorizado com a seguinte mensagem, no próprio cardápio : " Este prato tem início de preparo no ato do pedido. O tempo aproximado de preparo é de 50 minutos." Desta forma, o restaurante informa sobre a demora mas, em compensação, passa uma idéia de exclusividade. Ainda que não se imagine receber alimentos que não sejam frescos e/ou recém produzidos (sabemos bem que isso não é verdade), a mensagem deixa clara a idéia de que o prato está sendo preparado para o cliente, especificamente para ele, naquele instante. E neutraliza o aborrecimento derivado da espera excessiva.

Já com relação à molheira (que já estava sobre a mesa, junto com os outros condimentos), não pode o restaurante inferir de que todos saibam do costumeiro hábito de portugueses gostarem de molhos apimentados. Pode ser que o molho seja condição sine qua non de acompanhamento dos pratos, mas o cliente não tem obrigação de saber disso. Se uma criança chega a provar o molho, pensando ser um catchup, por exemplo, o desenrolar poderia (e seria, certamente) bem pior. Pra que se arriscar? O ideal é que o molho venha com o prato e que o garçom avise sobre a inevitável ardência do mesmo. Se preferirem deixá-lo sobre a mesa, para facilitar o mise-en-place, então que cuidem bem e alertem os clientes sobre os efeitos do mesmo. Ou mesmo adicionem um pequeno aviso na própria molheira.

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